sexta-feira, 8 de julho de 2016

Paciência e Tolerância

São Cipriano (c. 200-258), bispo de Cartago e mártir 
Os benefícios da paciência 


«Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos»


Salutar é o preceito de Nosso Senhor e Mestre: «aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo». Ele diz ainda: «Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á» (Jo 8,31). É preciso suportar e perseverar, irmãos bem amados. Assim, admitidos na esperança da verdade e da libertação, podemos chegar a esta verdade e a esta liberdade, porque, se somos cristãos, é por obra da fé e da esperança. Mas, para que a esperança e a fé possam dar fruto, é necessária a paciência. [...] 

Que não trabalhemos pois na impaciência, que não nos deixemos abater no caminho do Reino, distraídos e vencidos pelas tentações. Não jurar, não maldizer, não reclamar o que nos é tirado à força, dar a outra face, perdoar aos irmãos todos os seus defeitos, amar os inimigos e rezar pelos que nos perseguem: como chegaremos a fazer tudo isto se não formos firmes na paciência e na tolerância? É o que vemos em Estêvão. [...] Ele não pede a vingança, mas o perdão para os seus algozes: «Senhor, não lhes imputes este pecado» (Act 7,59). Assim, o primeiro mártir de Cristo [...] não foi apenas o pregador da paixão do Senhor, mas também o imitador da sua extrema doçura. Quando o nosso coração é habitado pela paciência, não pode haver aí lugar para a cólera, a discórdia e a rivalidade. A paciência de Cristo expulsa tudo isso, para construir no coração uma morada pacífica onde o Deus da paz tem gosto em habitar.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Traição

Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Comentário sobre o Evangelho de Lucas 5, 44-45 


"E Judas Iscariotes, que foi quem O entregou."

Cristo chamou os seus discípulos e escolheu doze, para os enviar por todo o mundo, como semeadores da fé, a propagar a salvação dos homens. Reparai bem neste plano divino: não foram sábios, nem homens ricos, nem nobres, mas pecadores e publicanos os que Ele escolheu enviar, não fossem dar a impressão de que tinham sido movidos pelas suas capacidades, escolhidos pelas suas riquezas, chamados devido ao seu prestígio, ao seu poder ou à sua notoriedade. Procedeu assim para que a vitória tivesse origem no fundamento da verdade, e não no prestígio do discurso. 

Também Judas foi escolhido, não por insensatez, mas com conhecimento de causa. Que grandeza a desta verdade, que nem um servo inimigo é capaz de enfraquecer! E que grandeza de carácter a do Senhor, que prefere comprometer, a nossos olhos, a sua capacidade de ajuizar, a pôr em causa a sua capacidade de amar! Ele tomou sobre Si a fraqueza humana, e nem deste aspeto da mesma fraqueza Se esqueceu! Quis o abandono, quis a traição, quis ser entregue pelo seu apóstolo, para que também tu, abandonado por um companheiro, atraiçoado por um companheiro, aceites tranquilamente esse erro de avaliação, essa delapidação da tua bondade.

Fonte: Evangelho Cotidiano

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Julgar o irmão

São João Clímaco (c. 575-c. 650), monge do Monte Sinai 

A Escada Santa, 10.º degrau 

Porque olhas o argueiro que o teu irmão tem na vista?


Ouvi alguns falarem mal do seu próximo e repreendi-os. Para se defenderem, esses operários do mal replicaram: «É por caridade e por solicitude que falamos assim!» Mas eu respondi-lhes: Deixai de praticar tal caridade, pois estaríeis a chamar mentiroso ao que diz: «Afasto de Mim quem denigre em segredo o seu próximo» (Sl 100,5). Se amas essa pessoa como afirmas, reza em segredo por ela e não te rias do que faz. É essa maneira de amar que agrada ao Senhor; não percas isto de vista e esforça-te cuidadosamente por não julgar os pecadores. Judas pertencia ao número dos apóstolos e o ladrão fazia parte dos malfeitores, mas que espantosa mudança se deu nele num só instante! [...] 

Responde, pois, ao que diz mal do seu próximo: «Para, irmão! Eu próprio caio todos os dias em faltas mais graves; como poderei condenar essa pessoa?» Obterás assim um duplo proveito: curar-te-ás a ti mesmo e curarás o teu próximo. Não julgar é um atalho que conduz ao perdão dos pecados, pois está dito: «Não julgueis e não sereis julgados.» [...] Alguns cometeram grandes faltas à vista de todos mas realizaram em segredo os maiores atos de virtude, de tal maneira que os seus acusadores se enganaram, dando atenção ao fumo sem verem o sol. [...] 

Os críticos diligentes e severos caem nessa ilusão porque não guardam a memória nem a preocupação dos seus próprios pecados. [...] Julgar os outros é usurpar sem vergonha uma prerrogativa divina; condená-los é arruinar a nossa própria alma. [...] Tal como um bom vindimador come as uvas maduras e não colhe as verdes, assim também um espírito benevolente e sensato anota cuidadosamente todas as virtudes que vê nos outros; mas o insensato perscruta as faltas e as deficiências.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Sobre o Pai Nosso - São Cipriano

São Cipriano (c. 200-258), bispo de Cartago e mártir 

A Oração do Senhor, 14-15 

Seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu.


Não é que Deus faça o que quer, mas que nós façamos o que Ele quer. Alguma coisa poderá impedir Deus de fazer o que quer? Nós, pelo contrário, somos contrariados pelo demónio, que nos impede de obedecer em todas as coisas, interior e exteriormente, à vontade de Deus. Apesar disso, pedimos que a sua vontade se faça em nós; ora, para que tal aconteça, precisamos da sua ajuda. Não há ninguém que seja forte com base nos seus próprios recursos; a força reside na bondade e na misericórdia de Deus. [...] 

A vontade de Deus é aquela que Cristo fez e ensinou: a humildade no comportamento, a solidez na fé, a modéstia nas palavras, a justiça nos atos, a misericórdia nas obras, a disciplina nos costumes. A vontade de Deus consiste em não fazer mal a ninguém, em suportar aqueles que nos fazem mal, em manter a paz com os nossos irmãos, em amar a Deus de todo o coração, em amá-Lo porque é Pai e temê-Lo porque é Deus. Em nada preferir a Cristo, uma vez que Ele nos prefere a todas as coisas, em aderir inviolavelmente à sua caridade, em permanecer junto à cruz com coragem e confiança. Em mostrar constância nas palavras quando é preciso combater pelo seu nome ou a sua honra; em dar provas de confiança nas dificuldades a fim de sustentar a luta, de paciência na morte a fim de obter a coroa. É isso que significa querer ser co-herdeiro com Cristo, cumprir os preceitos de Deus, fazer a vontade de Deus.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quarta-feira, 15 de junho de 2016

São Padre Pio e a oração

São (Padre) Pio de Pietrelcina (1887-1968), capuchinho 
GF 173; EP 3 (982-983) 

«Fecha a porta e ora a teu Pai em segredo»


Sê assíduo à oração e à meditação. Disseste-me que já tinhas começado. Isso é um enorme consolo para um Pai que te ama como Ele te ama! Continua, pois, a progredir nesse exercício de amor a Deus. Dá todos os dias um passo: de noite, à luz suave da lamparina, entre as fraquezas e na secura de espírito; ou de dia, na alegria e na luminosidade que deslumbra a alma […]. 

Se conseguires, fala ao Senhor na oração, louva-O. Se não conseguires, por não teres ainda progredido o suficiente na vida espiritual, não te preocupes: fecha-te no teu quarto e põe-te na presença de Deus. Ele ver-te-á e apreciará a tua presença e o teu silêncio. Depois, pegar-te-á na mão, falará contigo, dará contigo cem passos pelas veredas do jardim que é a oração, onde encontrarás consolo. Permanecer na presença de Deus com o simples fito de manifestar a nossa vontade de nos reconhecermos como seus servidores é um excelente exercício espiritual, que nos faz progredir no caminho da perfeição. 

Quando estiveres unido a Deus pela oração, examina quem és verdadeiramente; fala com Ele, se conseguires; se te for impossível, detém-te, permanece diante dele. Em nada mais te empenhes como nisso.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Sobre a Oração e o Perdão

Orígenes (c. 185-253), presbítero, teólogo Pequeno Tratado sobre a Oração 

«Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão»


Ninguém poderá o que quer que seja através da oração se não rezar com boas disposições e com uma fé reta. [...] Não se trata de falar muito [...]; trata-se de não ir rezar com uma alma perturbada por ressentimentos. Não se imagina que alguém vá à oração sem preparar o seu coração; também não se imagina que aquele que reza possa obter o perdão dos seus pecados se não tiver primeiro perdoado de todo o coração a um irmão que lhe pede perdão. [...] 

Portanto, em primeiro lugar, aquele que se dispõe a rezar terá grande vantagem em adotar uma atitude que o ajude a pôr-se em presença de Deus e a falar-Lhe como a alguém que o vê e lhe está presente. Certas imagens e recordações de acontecimentos passados ocupam o espírito que se deixa invadir por elas; por isso, é útil recordar que Deus está ali e conhece os movimentos mais secretos da nossa alma. Desse modo, ela dispõe-se a agradar Àquele que está presente, que a vê e antecipa todos os seus pensamentos, Àquele que perscruta os corações e sonda os rins (Sl 7,10). [...] 

Como dizem as Sagradas Escrituras, é preciso que quem reza eleve as mãos puras, perdoe a cada um dos que o ofenderam, rejeite tudo o que perturba a sua alma e não se irrite contra ninguém. [...] E quem pode duvidar de que este estado de alma seja o mais favorável? Paulo ensina-o quando diz na sua primeira carta a Timóteo: «Quero que os homens rezem em todo o lugar, elevando as mãos puras, sem ressentimento nem contestação» (2,8).

Fonte: Evangelho Cotidiano

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Bem aventurados os pobres em espírito

Isaac da Estrela (?-c. 1171), monge cisterciense 
Sermão 1, de Todos os Santos 


Todos os homens, sem exceção, desejam a felicidade, a bem-aventurança. Mas têm sobre ela ideias diferentes: para um, a felicidade está na voluptuosidade dos sentidos e na suavidade de vida; para outro, está na virtude; para outro ainda, está no conhecimento da verdade. É por isso que Aquele que ensina todos os homens [...] começa por recuperar os que se afastaram, orientando os que se encontram no caminho certo, e abrindo a porta aos que batem. [...] Assim, pois, Aquele que é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6) recupera, orienta e abre a porta, e começa a fazê-lo dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito». 

A falsa sabedoria deste mundo, que na realidade é loucura (1Cor 3,19), pronuncia-se sem compreender o que diz, considerando bem-aventurados «os filhos do estrangeiro, cuja boca só diz mentiras, e cuja direita jura falso», porque os celeiros deles «estão fornecidos com todas as espécies, os seus rebanhos multiplicam-se aos milhares, em dezenas de milhares os seus campos» (Sl 143,11-13). Mas todas estas riquezas são incertas, a paz deles não é a paz (Jer 6,14), a alegria deles é estúpida. Pelo contrário, a Sabedoria de Deus, o Filho por natureza, a mão direita do Pai, a boca que fala verdade, proclama felizes os pobres, que estão destinados a ser reis do reino eterno. Ele parece dizer: «Procurais a bem-aventurança, mas ela não se encontra onde a procurais; correis, mas correis fora do caminho. Eis o caminho que conduz à felicidade: a pobreza voluntária por minha causa, é esse o caminho. O reino dos céus em Mim, eis a bem-aventurança. Correis muito, mas mal; quanto mais depressa avançais, mais vos afastais da meta.» 

Não temamos, irmãos. Somos pobres, ouçamos a palavra do Pobre, que recomenda a pobreza aos pobres. Podemos acreditar na sua experiência: tendo nascido pobre, Ele viveu pobre e pobre morreu. Nunca quis enriquecer; antes aceitou morrer. Acreditemos, pois, na Verdade que nos indica o caminho que conduz à vida. Trata-se de um caminho árduo, mas curto; e a felicidade é eterna. O caminho é estreito, mas conduz à vida (Mt 7,14).

Fonte: Evangelho Cotidiano

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Caminhos para entrar na vida eterna

São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da IgrejaSermão sobre o diabo tentador 


Quereis que vos indique os caminhos da conversão? São numerosos, variados e diferentes, mas todos conduzem ao céu. O primeiro caminho da conversão é a condenação das nossas faltas. «Aviva a tua memória, entremos em juízo; fala para te justificares!» (Is 43,26). É por isso que o profeta observava: «Eu disse: "Confessarei os meus erros ao Senhor"; e Vós perdoastes a culpa do meu pecado» (Sl 31,5). Condena pois, tu próprio, as faltas que cometeste, e tal será suficiente para que o Senhor te atenda. Com efeito, aquele que condena as suas faltas tem a vantagem de recear tornar a cair nelas. [...] 

Há um segundo caminho, não inferior ao referido, que é o de não guardar rancor aos nossos inimigos e dominar a cólera para perdoar as ofensas dos nossos companheiros, porque assim obteremos o perdão das que nós cometemos contra o Mestre; é a segunda maneira de obter a purificação das nossas faltas, «porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós» (Mt 6,14). 

Queres conhecer o terceiro caminho da conversão? É a oração fervorosa e perseverante que fizeres do fundo do coração. [...] O quarto caminho é a esmola, que tem uma força considerável e indizível. [...] Em seguida, a modéstia e a humildade não são meios inferiores para destruir os pecados pela raiz; temos como prova disso o publicano, que não podia proclamar boas acções, mas as substituiu pela oferta da sua humildade, entregando assim o pesado fardo das suas faltas (Lc 18,9s). 

Acabamos de indicar cinco caminhos de conversão. [...] Não fiques pois inativo, mas em cada dia utiliza todos estes caminhos. São caminhos fáceis, e não podes apresentar a tua miséria como desculpa para os não percorreres.

Fonte: Evangelho Cotidiano