segunda-feira, 20 de junho de 2016

Julgar o irmão

São João Clímaco (c. 575-c. 650), monge do Monte Sinai 

A Escada Santa, 10.º degrau 

Porque olhas o argueiro que o teu irmão tem na vista?


Ouvi alguns falarem mal do seu próximo e repreendi-os. Para se defenderem, esses operários do mal replicaram: «É por caridade e por solicitude que falamos assim!» Mas eu respondi-lhes: Deixai de praticar tal caridade, pois estaríeis a chamar mentiroso ao que diz: «Afasto de Mim quem denigre em segredo o seu próximo» (Sl 100,5). Se amas essa pessoa como afirmas, reza em segredo por ela e não te rias do que faz. É essa maneira de amar que agrada ao Senhor; não percas isto de vista e esforça-te cuidadosamente por não julgar os pecadores. Judas pertencia ao número dos apóstolos e o ladrão fazia parte dos malfeitores, mas que espantosa mudança se deu nele num só instante! [...] 

Responde, pois, ao que diz mal do seu próximo: «Para, irmão! Eu próprio caio todos os dias em faltas mais graves; como poderei condenar essa pessoa?» Obterás assim um duplo proveito: curar-te-ás a ti mesmo e curarás o teu próximo. Não julgar é um atalho que conduz ao perdão dos pecados, pois está dito: «Não julgueis e não sereis julgados.» [...] Alguns cometeram grandes faltas à vista de todos mas realizaram em segredo os maiores atos de virtude, de tal maneira que os seus acusadores se enganaram, dando atenção ao fumo sem verem o sol. [...] 

Os críticos diligentes e severos caem nessa ilusão porque não guardam a memória nem a preocupação dos seus próprios pecados. [...] Julgar os outros é usurpar sem vergonha uma prerrogativa divina; condená-los é arruinar a nossa própria alma. [...] Tal como um bom vindimador come as uvas maduras e não colhe as verdes, assim também um espírito benevolente e sensato anota cuidadosamente todas as virtudes que vê nos outros; mas o insensato perscruta as faltas e as deficiências.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Sobre o Pai Nosso - São Cipriano

São Cipriano (c. 200-258), bispo de Cartago e mártir 

A Oração do Senhor, 14-15 

Seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu.


Não é que Deus faça o que quer, mas que nós façamos o que Ele quer. Alguma coisa poderá impedir Deus de fazer o que quer? Nós, pelo contrário, somos contrariados pelo demónio, que nos impede de obedecer em todas as coisas, interior e exteriormente, à vontade de Deus. Apesar disso, pedimos que a sua vontade se faça em nós; ora, para que tal aconteça, precisamos da sua ajuda. Não há ninguém que seja forte com base nos seus próprios recursos; a força reside na bondade e na misericórdia de Deus. [...] 

A vontade de Deus é aquela que Cristo fez e ensinou: a humildade no comportamento, a solidez na fé, a modéstia nas palavras, a justiça nos atos, a misericórdia nas obras, a disciplina nos costumes. A vontade de Deus consiste em não fazer mal a ninguém, em suportar aqueles que nos fazem mal, em manter a paz com os nossos irmãos, em amar a Deus de todo o coração, em amá-Lo porque é Pai e temê-Lo porque é Deus. Em nada preferir a Cristo, uma vez que Ele nos prefere a todas as coisas, em aderir inviolavelmente à sua caridade, em permanecer junto à cruz com coragem e confiança. Em mostrar constância nas palavras quando é preciso combater pelo seu nome ou a sua honra; em dar provas de confiança nas dificuldades a fim de sustentar a luta, de paciência na morte a fim de obter a coroa. É isso que significa querer ser co-herdeiro com Cristo, cumprir os preceitos de Deus, fazer a vontade de Deus.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quarta-feira, 15 de junho de 2016

São Padre Pio e a oração

São (Padre) Pio de Pietrelcina (1887-1968), capuchinho 
GF 173; EP 3 (982-983) 

«Fecha a porta e ora a teu Pai em segredo»


Sê assíduo à oração e à meditação. Disseste-me que já tinhas começado. Isso é um enorme consolo para um Pai que te ama como Ele te ama! Continua, pois, a progredir nesse exercício de amor a Deus. Dá todos os dias um passo: de noite, à luz suave da lamparina, entre as fraquezas e na secura de espírito; ou de dia, na alegria e na luminosidade que deslumbra a alma […]. 

Se conseguires, fala ao Senhor na oração, louva-O. Se não conseguires, por não teres ainda progredido o suficiente na vida espiritual, não te preocupes: fecha-te no teu quarto e põe-te na presença de Deus. Ele ver-te-á e apreciará a tua presença e o teu silêncio. Depois, pegar-te-á na mão, falará contigo, dará contigo cem passos pelas veredas do jardim que é a oração, onde encontrarás consolo. Permanecer na presença de Deus com o simples fito de manifestar a nossa vontade de nos reconhecermos como seus servidores é um excelente exercício espiritual, que nos faz progredir no caminho da perfeição. 

Quando estiveres unido a Deus pela oração, examina quem és verdadeiramente; fala com Ele, se conseguires; se te for impossível, detém-te, permanece diante dele. Em nada mais te empenhes como nisso.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Sobre a Oração e o Perdão

Orígenes (c. 185-253), presbítero, teólogo Pequeno Tratado sobre a Oração 

«Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão»


Ninguém poderá o que quer que seja através da oração se não rezar com boas disposições e com uma fé reta. [...] Não se trata de falar muito [...]; trata-se de não ir rezar com uma alma perturbada por ressentimentos. Não se imagina que alguém vá à oração sem preparar o seu coração; também não se imagina que aquele que reza possa obter o perdão dos seus pecados se não tiver primeiro perdoado de todo o coração a um irmão que lhe pede perdão. [...] 

Portanto, em primeiro lugar, aquele que se dispõe a rezar terá grande vantagem em adotar uma atitude que o ajude a pôr-se em presença de Deus e a falar-Lhe como a alguém que o vê e lhe está presente. Certas imagens e recordações de acontecimentos passados ocupam o espírito que se deixa invadir por elas; por isso, é útil recordar que Deus está ali e conhece os movimentos mais secretos da nossa alma. Desse modo, ela dispõe-se a agradar Àquele que está presente, que a vê e antecipa todos os seus pensamentos, Àquele que perscruta os corações e sonda os rins (Sl 7,10). [...] 

Como dizem as Sagradas Escrituras, é preciso que quem reza eleve as mãos puras, perdoe a cada um dos que o ofenderam, rejeite tudo o que perturba a sua alma e não se irrite contra ninguém. [...] E quem pode duvidar de que este estado de alma seja o mais favorável? Paulo ensina-o quando diz na sua primeira carta a Timóteo: «Quero que os homens rezem em todo o lugar, elevando as mãos puras, sem ressentimento nem contestação» (2,8).

Fonte: Evangelho Cotidiano

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Bem aventurados os pobres em espírito

Isaac da Estrela (?-c. 1171), monge cisterciense 
Sermão 1, de Todos os Santos 


Todos os homens, sem exceção, desejam a felicidade, a bem-aventurança. Mas têm sobre ela ideias diferentes: para um, a felicidade está na voluptuosidade dos sentidos e na suavidade de vida; para outro, está na virtude; para outro ainda, está no conhecimento da verdade. É por isso que Aquele que ensina todos os homens [...] começa por recuperar os que se afastaram, orientando os que se encontram no caminho certo, e abrindo a porta aos que batem. [...] Assim, pois, Aquele que é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6) recupera, orienta e abre a porta, e começa a fazê-lo dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito». 

A falsa sabedoria deste mundo, que na realidade é loucura (1Cor 3,19), pronuncia-se sem compreender o que diz, considerando bem-aventurados «os filhos do estrangeiro, cuja boca só diz mentiras, e cuja direita jura falso», porque os celeiros deles «estão fornecidos com todas as espécies, os seus rebanhos multiplicam-se aos milhares, em dezenas de milhares os seus campos» (Sl 143,11-13). Mas todas estas riquezas são incertas, a paz deles não é a paz (Jer 6,14), a alegria deles é estúpida. Pelo contrário, a Sabedoria de Deus, o Filho por natureza, a mão direita do Pai, a boca que fala verdade, proclama felizes os pobres, que estão destinados a ser reis do reino eterno. Ele parece dizer: «Procurais a bem-aventurança, mas ela não se encontra onde a procurais; correis, mas correis fora do caminho. Eis o caminho que conduz à felicidade: a pobreza voluntária por minha causa, é esse o caminho. O reino dos céus em Mim, eis a bem-aventurança. Correis muito, mas mal; quanto mais depressa avançais, mais vos afastais da meta.» 

Não temamos, irmãos. Somos pobres, ouçamos a palavra do Pobre, que recomenda a pobreza aos pobres. Podemos acreditar na sua experiência: tendo nascido pobre, Ele viveu pobre e pobre morreu. Nunca quis enriquecer; antes aceitou morrer. Acreditemos, pois, na Verdade que nos indica o caminho que conduz à vida. Trata-se de um caminho árduo, mas curto; e a felicidade é eterna. O caminho é estreito, mas conduz à vida (Mt 7,14).

Fonte: Evangelho Cotidiano

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Caminhos para entrar na vida eterna

São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da IgrejaSermão sobre o diabo tentador 


Quereis que vos indique os caminhos da conversão? São numerosos, variados e diferentes, mas todos conduzem ao céu. O primeiro caminho da conversão é a condenação das nossas faltas. «Aviva a tua memória, entremos em juízo; fala para te justificares!» (Is 43,26). É por isso que o profeta observava: «Eu disse: "Confessarei os meus erros ao Senhor"; e Vós perdoastes a culpa do meu pecado» (Sl 31,5). Condena pois, tu próprio, as faltas que cometeste, e tal será suficiente para que o Senhor te atenda. Com efeito, aquele que condena as suas faltas tem a vantagem de recear tornar a cair nelas. [...] 

Há um segundo caminho, não inferior ao referido, que é o de não guardar rancor aos nossos inimigos e dominar a cólera para perdoar as ofensas dos nossos companheiros, porque assim obteremos o perdão das que nós cometemos contra o Mestre; é a segunda maneira de obter a purificação das nossas faltas, «porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós» (Mt 6,14). 

Queres conhecer o terceiro caminho da conversão? É a oração fervorosa e perseverante que fizeres do fundo do coração. [...] O quarto caminho é a esmola, que tem uma força considerável e indizível. [...] Em seguida, a modéstia e a humildade não são meios inferiores para destruir os pecados pela raiz; temos como prova disso o publicano, que não podia proclamar boas acções, mas as substituiu pela oferta da sua humildade, entregando assim o pesado fardo das suas faltas (Lc 18,9s). 

Acabamos de indicar cinco caminhos de conversão. [...] Não fiques pois inativo, mas em cada dia utiliza todos estes caminhos. São caminhos fáceis, e não podes apresentar a tua miséria como desculpa para os não percorreres.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A Oração - São Clemente de Alexandria

São Clemente de Alexandria (150-c. 215), teólogo 
«Stromata» 7,7


«Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.»


É nosso dever venerar e honrar Aquele que acreditamos ser o Verbo, nosso Salvador e nosso Senhor, e, por Ele, o Pai, não em certos dias especiais (tal como outros fazem) mas continuamente, durante toda a nossa vida e de todas as formas. «Sete vezes por dia cantei o teu louvor» (Sl 118,164), exclama o povo eleito. [...] Por isso, não é num lugar determinado, nem num templo escolhido, nem em certas festas ou em certos dias fixos, mas é durante toda a vida e em toda a parte que o homem verdadeiramente espiritual honra a Deus, isto é, dá graças por conhecer a verdadeira vida. 

A presença do homem de bem, pelo respeito que inspira, torna sempre melhor quem com ele convive. Quanto mais aquele que está continuamente na presença de Deus, pelo conhecimento, pela maneira de viver e pela acção de graças, se irá tornando cada dia melhor em tudo: acções, palavras e disposições! [...] Vivendo, pois, toda a nossa vida como uma festa, na certeza de que Deus está totalmente presente em toda a parte, trabalhamos cantando, navegamos ao som de hinos e comportamo-nos à maneira dos «cidadãos do céu» (Fl 3,20). 

A oração é, ouso dizê-lo, uma conversa íntima com Deus. Mesmo quando murmuramos suavemente, mesmo quando, sem mexer os lábios, falamos em silêncio, estamos a gritar interiormente. E Deus volta constantemente o seu ouvido para esta voz interior. [...] Sim, o homem verdadeiramente espiritual ora durante toda a sua vida, porque orar é para ele um esforço de união com Deus, e rejeita tudo o que é inútil porque atingiu aquele estado em que já recebeu, de certa maneira, a perfeição, que consiste em agir por amor. [...] Toda a sua vida é uma liturgia sagrada.

Fonte: Evangelho Cotidiano

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sobre a oração

Orígenes (c. 185-253), presbítero, teólogo 
A Oração, 31 
«Tudo quanto pedirdes em meu nome, Eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.»


Parece-me que quem se dispõe a orar deverá recolher-se e procurar preparar-se, para conseguir estar mais atento e concentrado durante a oração. Deve também afastar do seu pensamento a ansiedade e a perturbação, e esforçar-se por recordar a grandeza de Deus, de quem se aproxima, considerando que será ímpio apresentar-se na sua presença sem a necessária atenção, sem algum esforço, mas com uma espécie de ligeireza; deve, enfim, rejeitar pensamentos excêntricos. 

Ao começar a oração, devemos, digamos assim, apresentar a alma antes das mãos, erguer a Deus o espírito antes dos olhos, libertar o espírito da terra antes de o elevarmos para o oferecer ao Senhor do universo, enfim, depor quaisquer ressentimentos por ofensas que creiamos ter sofrido, se de facto desejamos que Deus esqueça o mal que cometemos contra Ele, contra os nossos semelhantes, ou contra a boa razão. 

Dado que podem ser muitas as atitudes do corpo, o gesto de erguer as mãos e os olhos aos céus deve claramente ser preferido a todos os outros, para assim exprimirmos no corpo a imagem das disposições da alma durante a oração [...], mas as circunstâncias podem por vezes levar-nos a rezar sentados [...] ou mesmo deitados [...]. Por seu turno, a oração de joelhos torna-se necessária sempre que acusamos os nossos pecados diante de Deus, e Lhe suplicamos que deles nos cure e nos absolva. Essa atitude é o símbolo da humilhação e da submissão de que fala Paulo, quando escreve: «É por isso que eu dobro os joelhos diante do Pai, do qual recebe o nome toda a paternidade nos céus e na terra» (Ef 3,14-15). Trata-se da genuflexão espiritual, assim chamada porque todas as criaturas adoram a Deus no nome de Jesus a Ele se submetem humildemente. O apóstolo Paulo parece fazer uma alusão a isso quando diz: «Para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que estão no céu, na terra e debaixo da terra» (Fil 2,10).

Fonte: Evangelho Cotidiano