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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Traição

Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Comentário sobre o Evangelho de Lucas 5, 44-45 


"E Judas Iscariotes, que foi quem O entregou."

Cristo chamou os seus discípulos e escolheu doze, para os enviar por todo o mundo, como semeadores da fé, a propagar a salvação dos homens. Reparai bem neste plano divino: não foram sábios, nem homens ricos, nem nobres, mas pecadores e publicanos os que Ele escolheu enviar, não fossem dar a impressão de que tinham sido movidos pelas suas capacidades, escolhidos pelas suas riquezas, chamados devido ao seu prestígio, ao seu poder ou à sua notoriedade. Procedeu assim para que a vitória tivesse origem no fundamento da verdade, e não no prestígio do discurso. 

Também Judas foi escolhido, não por insensatez, mas com conhecimento de causa. Que grandeza a desta verdade, que nem um servo inimigo é capaz de enfraquecer! E que grandeza de carácter a do Senhor, que prefere comprometer, a nossos olhos, a sua capacidade de ajuizar, a pôr em causa a sua capacidade de amar! Ele tomou sobre Si a fraqueza humana, e nem deste aspeto da mesma fraqueza Se esqueceu! Quis o abandono, quis a traição, quis ser entregue pelo seu apóstolo, para que também tu, abandonado por um companheiro, atraiçoado por um companheiro, aceites tranquilamente esse erro de avaliação, essa delapidação da tua bondade.

Fonte: Evangelho Cotidiano

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Vinde ao banquete de núpcias

São Tiago de Sarug (c. 449-521), monge e bispo sírio 
Homilia sobre o véu de Moisés 

As mulheres não estão tão fortemente unidas aos maridos como a Igreja está ao Filho de Deus. Que esposo, para além de Nosso Senhor, morreu jamais por sua esposa, que esposa escolheu jamais um crucificado como esposo? Quem deu jamais o seu sangue como presente a sua esposa, senão Aquele que morreu na cruz, selando a união nupcial por meio das suas chagas? Quem se viu jamais morto e jacente no banquete das próprias núpcias, com a esposa a seu lado, pedindo para ser consolada? Em que festa, em que banquete, senão neste, se distribuiu aos convivas, sob a forma de pão, o corpo do esposo? 

A morte separa as esposas dos maridos, mas neste caso une a Esposa a seu Bem-Amado. Ele morreu na cruz, deixando o seu corpo a sua gloriosa Esposa; agora, Ela toma-O em alimento todos os dias à sua mesa. Alimenta-se dele sob a forma de pão e sob a forma de vinho, para que o mundo reconheça que já não são dois, mas um só.



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Tudo o que ligares na terra será ligado no céu.

Isaac da Estrela (?-c. 1171), monge cisterciense 


Tudo se torna comum entre o Esposo e a esposa, isto é, entre Cristo e a sua Igreja, incluindo a honra de receber a confissão e o poder de perdoar os pecados; assim se explicam aquelas palavras: «Vai mostrar-te ao sacerdote» (Mt 8,4). [...] Por conseguinte, a Igreja nada pode perdoar sem Cristo, e Cristo nada quer perdoar sem a Igreja. A Igreja não pode perdoar senão a quem se arrepende, isto é, a quem Cristo tocou com a sua graça; e Cristo não quer perdoar a quem despreza a Igreja. 

Cristo, que é todo-poderoso, tudo pode por Si mesmo: baptizar, consagrar a Eucaristia, conferir o sacramento da ordem, perdoar os pecados, e tudo o mais; mas o Esposo, que é humilde e fiel, nada quer fazer sem a esposa. «Não separe o homem o que Deus uniu» (Mt 19,6). «É grande este mistério; mas eu interpreto-o em relação a Cristo e à Igreja» (Ef 5,32). [...] Não separes, portanto, a Cabeça do corpo (Col 1,18); não impeças a acção do Cristo total; porque nem Cristo é total sem a Igreja, nem a Igreja é total sem Cristo. O Cristo total e inteiro é a Cabeça e o corpo.

Fonte: Evangelho Cotidiano

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Em verdade te digo: não cantará o galo, antes de Me teres negado três vezes!

Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Tratado sobre São Lucas 10, 49-52, 87-89 



Em verdade te digo: não cantará o galo, antes de Me teres negado três vezes!



Irmãos convertamo-nos: tomemos cuidado para que não ocorram entre nós disputas de precedência para nossa perdição. É verdade que os apóstolos discutiam entre si (cf Lc 22,24), mas isso não é desculpa para nós: é um convite a tomarmos cuidado. É certo que Pedro se converteu no dia em que respondeu ao chamamento do Mestre, mas quem pode afirmar que a sua própria conversão foi repentina? […] 

O Senhor dá-nos exemplo. Nós tínhamos necessidade de tudo; Ele não precisa de ninguém e, no entanto, apresenta-Se como mestre de humildade, servindo os seus discípulos. […] 

Pedro, rápido de espírito, mas ainda frágil nas disposições do corpo (cf Mt 26,41), foi prevenido de que iria negar o Senhor. A Paixão do Senhor encontra imitadores, mas não iguais. Assim, não censuro Pedro por ter negado o Senhor; felicito-o por ter chorado. Uma coisa vem da nossa condição humana, a outra é um sinal de virtude, de força interior. […] Mas, se nós o desculpamos, ele não se desculpou. […] Preferiu acusar-se do seu pecado e justificar-se com uma confissão, em vez de agravar o seu caso com negações. E chorou. […] 

Pedro chorou, mas não se desculpou. Quem não se pode defender pode lavar-se: as lágrimas lavam as faltas que nos fazem corar quando as confessamos de viva voz. […] As lágrimas confessam a falta sem tremer […]; as lágrimas não pedem perdão e, no entanto, obtêm-no. […] Boas lágrimas, as que lavam a falta! E aqueles para quem Jesus olha sabem chorar. Pedro negou uma primeira vez e não chorou, porque o Senhor não estava a olhar. Negou uma segunda vez, ainda sem chorar, pois o Senhor ainda não estava a olhar. Negou uma terceira vez; Jesus olhou para ele e ele chorou amargamente. Olha para nós, Senhor Jesus, para que saibamos chorar os nossos pecados.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Da Imitação de Cristo: "Hão-de ver o Filho do Homem vir"

«O Reino de Deus está dentro de vós», diz o Senhor (Lc 17,21). Volta-te com todo o teu coração para o Senhor e deixa este mundo miserável; e a tua alma achará repouso. Aprende a desprezar as coisas exteriores e a entregar-te às interiores, e verás chegar para ti o Reino de Deus. Na verdade, «o Reino de Deus é a paz e a alegria no Espírito Santo» (Rom 14,17), que não é dado aos ímpios. 

Cristo virá junto de ti, mostrando-te a sua consolação, se Lhe tiveres preparado interiormente uma morada digna. Toda a sua glória e beleza são de dentro, e é aí que Ele Se compraz. Ele visita frequentemente o homem recolhido, a sua conversa é doce, a sua consolação agradável, a sua paz imensa, o seu convívio admirável. 

Vai, alma fiel, prepara o teu coração para este Esposo, para que Se digne vir a ti e em ti habitar. Na verdade, Ele diz assim: «Se alguém Me ama, ouvirá a minha palavra, e viremos a ele, e nele faremos morada» (Jo 14,23). […] O homem interior depressa se recolhe, pois nunca se dispersa totalmente nas coisas exteriores. O trabalho exterior não o prejudica, nem as ocupações, por vezes necessárias; mas, tal como sucedem as coisas, assim a elas se acomoda. Aquele que é bem formado e ordenado interiormente não se importa com as acções admiráveis ou perversas dos homens. […] Se renunciares às consolações exteriores, poderás contemplar as coisas do céu e alegrar-te frequentemente em teu coração.

Imitação de Cristo, tratado espiritual do século XV, Livraria Moraes, 1959 
Livro 2, § 1 

Fonte: Evangelho Cotidiano

sexta-feira, 11 de julho de 2014

São Bento estabeleceu a paz de Cristo na Europa invadida pelos bárbaros

Papa Pio XII
Encíclica «Fulgens radiatur», de 21/03/1947 

Com efeito, enquanto nessa escura e convulsionada época da história o cultivo da terra, o amor do trabalho e da arte, o estudo das ciências e das letras, tanto religiosas como profanas, eram lançados, por uma espécie de desdém geral e sintomático, ao abandono, dos mosteiros beneditinos sai uma plêiade luminosa de agricultores, de artistas, de sábios, que nos salvaram incólumes os monumentos da velha literatura, conciliaram os velhos e os novos povos, em guerras constantes, reduzindo-os da barbárie renascente, das correrias, do saque, à moderação da moral humana e cristã, à abnegação do trabalho, à luz da verdade; reconstituíram, enfim, uma civilização enformada nos princípios do Evangelho. 

Isso, porém, não é tudo. A base, a directriz, por assim dizer, suprema de toda a vida beneditina é que todo trabalho, seja ele qual for, intelectual ou manual, seja, antes de mais, para o monge, veículo que o eleve a Jesus Cristo e centelha que o inflame no seu amor perfeitíssimo. Não podem, com efeito, as coisas da terra, nem do universo, satisfazer as exigências espirituais do homem, que Deus criou para Si. […] Por essa razão, é absolutamente necessário que nada se anteponha ao amor de Cristo, que nada nos seja mais caro que o seu amor, que, numa palavra, nada absolutamente se anteponha a Cristo, que Se digna conduzir-nos à posse da vida eterna. 

A este ardentíssimo amor de Jesus Cristo é necessário que corresponda o amor do próximo, porque a todos, indistintamente, devemos o ósculo fraterno da paz e o tributo solícito do nosso arrimo. Donde, enquanto a intriga e o ódio convulsionavam e lançavam os povos nos campos de batalha e, nessa confusão cósmica dos homens e das coisas, erguiam ao alto o facho sangrento da morte, do roubo, da miséria e das lágrimas, Bento legava a seus filhos este preceito santíssimo: «Ponha-se particular cuidado e solicitude no recebimento dos pobres e viajantes estrangeiros, porque é na pessoa destes que principalmente se recebe a Cristo»; e «todos os hóspedes que se apresentarem no mosteiro se recebam como se fossem Cristo, porque Ele há-de dizer: fui hóspede e recebeste-me» (Mt 25,35). E mais ainda: «antes de tudo, haja o maior cuidado no tratamento dos doentes, sirvam-se com tal diligência como se fossem realmente Cristo, porque Ele disse: estive doente e me viestes visitar» (v. 36).

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Adeste Fidelis - versão em português: Cristãos, Vinde Todos



Segue a letra deste maravilhoso canto na sua versão brasileira, cantada no Tempo Litúrgico do Natal, no momento da Comunhão.

Adeste Fideles (versão brasileira)

Cristãos, vinde todos, com alegres cantos
Oh! vinde, oh! vinde até Belém.
Vede nascido vosso Rei eterno.

Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos o Salvador!

Humildes pastores deixam seus rebanhos
E alegres acorrem ao Rei dos céus
Nós igualmente, cheios de alegria.

Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos o Salvador!

O Deus invisível de eternal grandeza,
Sob véus de humildade, podemos ver.
Deus pequenino, Deus envolto em faixas!

Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos o Salvador!

Nasceu em pobreza, repousando em palhas,
O nosso afeto lhe vamos dar.
Tanto amou-nos! Quem não há de amá-lo?

Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos o Salvador!

A estrela do Oriente conduziu os Magos
E a este Mistério envolve em luz.
Tal claridade, também, seguiremos.

Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos!
Oh! vinde adoremos o Salvador!

Fonte: Youtube -  Canal de RyuuzakiL5

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Eu sou o Caminho (Jesus de Nazaré)

«Caminha através do homem e chegarás a Deus. É melhor andar pelo caminho, mesmo a coxear, que andar rapidamente, mas fora do caminho. Porque aquele que vai coxeando pelo caminho, ainda que avance pouco, aproxima-se do termo; mas aquele que anda fora do caminho, quanto mais corre, tanto mais se afasta do termo.»
                                                                       Santo Agostinho de Hipona

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher" (4,4).


Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo, mártir 
Contra as heresias III, 21,9-22,1; cf SC 211:


Deus havia prometido que da linhagem de David sairia o Rei eterno que reuniria todas as coisas em Si mesmo (Sl 131,11; Ef 1,10). Portanto, Deus retomou a obra que tinha projectado inicialmente (Gn 2,7). [...] E, tal como Adão, o primeiro homem modelado, recebeu a sua substância de uma terra virgem e imaculada [...] e foi moldado pela mão de Deus, isto é, a Palavra de Deus «por quem todas as coisas foram feitas» (Jb 10,8; Jo 1,3) [...], do mesmo modo foi de Maria ainda virgem que nasceu o Verbo, que é esta recuperação de Adão. [...] Por que foi que Deus não o tirou de novo do barro? Por que fez sair de Maria a obra que modelou? Foi para que a obra assim modelada não fosse diferente da primeira, mas a mesma, que não fosse outra a que é salva, mas a mesma, que a mesma fosse retomada, respeitando a semelhança.


Portanto, enganam-se os que dizem que Cristo nada recebeu da Virgem. Estes querem rejeitar a herança da carne, mas rejeitam também a semelhança [...]; já não se poderia dizer que Cristo era semelhante ao homem feito à imagem e à semelhança de Deus (Gn 1,27). Era o mesmo que afirmar que Cristo Se manifestou apenas na aparência, aparentando ser um homem, ou que Se tornou um homem sem nada assumir do homem. Se Ele não recebeu de um ser humano a substância da Sua carne, não Se fez homem nem Filho do homem; e se não Se fez aquilo que nós éramos, pouca importância têm as Suas dores e o Seu sofrimento. [...] O Verbo de Deus fez-Se verdadeiramente homem, recuperando em Si mesmo a obra que Ele tinha modelado. [...] O apóstolo Paulo afirma claramente na carta aos Gálatas: «Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher» (4,4).

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Cristo e a Igreja, sua esposa. São Tiago de Sarug

São Tiago de Sarug (c. 449-521), monge e bispo sírio
Homilia sobre o véu de Moisés

O Reino do Céu é comparável a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho

Nos Seus desígnios misteriosos, o Pai tinha preparado uma esposa para o Seu Filho único e tinha-lha apresentado sob as imagens da profecia. [...] Moisés escreveu no seu livro que «o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne» (Gn 2,24). O profeta Moisés falou-nos nesses termos do homem e da mulher para anunciar Cristo e a Sua Igreja. Com olhar agudo de profeta, viu Cristo tornar-Se um com a Igreja, graças ao mistério da água: viu Cristo atrair a Si a Igreja desde o seio virginal, e a Igreja atrair a si a Cristo na água do baptismo. O Esposo e a Esposa ficaram assim inteiramente unidos duma maneira mística; foi por isso que Moisés, com a face velada (Ex 34,33), contemplou Cristo e a Igreja: a um chamou «homem» à outra «mulher», para evitar mostrar aos hebreus a realidade em toda a sua clareza. [...] O véu ainda cobriria esse mistério durante algum tempo: ninguém conhecia o significado dessa grande imagem; ignorava-se o que ela representava.


Depois da celebração das núpcias, veio Paulo. Viu o véu que cobria todo esse esplendor, e levantou-o, para revelar Cristo e Sua Esposa ao mundo inteiro. Mostrou que era mesmo a eles que Moisés tinha descrito na sua visão profética. Exultando de divina alegria, o apóstolo proclamou: «Grande é este mistério» (Ef 5,32). Revelou o que representava essa imagem velada a que o profeta chamava homem e mulher: «Eu interpreto-o como sendo Cristo e a Igreja; [...] serão os dois uma só carne» (cf Ef 5,31).