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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Conselho aos jovens.

Portanto, os jovens que se dedicam ao estudo dessa disciplina (Lei de Deus) devem viver de tal modo que se abstenham de assuntos eróticos; dos prazeres da glutonaria; do desregrado cuidado e adorno do corpo; das fúteis ocupações com espetáculos; da indolência de tanto dormir e da preguiça; da rivalidade; da difamação e da inveja; das ambições de honras e poderes; do imoderado desejo do próprio louvor. Saibam que o apego ao dinheiro é um veneno certíssimo para toda a sua esperança. 

Não façam nada com fraqueza, nada temerariamente. Nas faltas de seus familiares reprimam a ira ou a refreiem de tal modo que ela pareça vencida. Não odeiem a ninguém. Não queiram curar todos os males. Observem muito ao punir para que não seja demasiado, e não seja pouco quando o castigo é reconhecido. Não deem castigo se não servir para melhorar e não perdoem se isto for ocasião para piorar. Julguem amigos seus todos aqueles sobre os quais vocês tenham recebido poder. Procurem servir-lhes de tal modo que vocês tenham vergonha de ter poder sobre eles; tenham poder sobre eles de tal modo que tenham prazer em servir-lhes. 

Nos pecados dos outros não se incomodem se eles não recebem a correção de boa vontade. Evitem com toda precaução as inimizades, suportem-nas com toda equanimidade, acabem com as inimizades o quanto antes possível. Em toda conversação e convivência com os homens basta observar este provérbio popular: Não façam a ninguém o que não queiram que lhes façam. 

Não aspirem a administrar a coisa pública se não forem perfeitos. E cuidem para se aperfeiçoar antes de chegar à idade para ocupar um cargo de senador ou, melhor, já na juventude. Mas, se alguém se converte em idade avançada a estas coisas, não pense que não lhe diz nenhum respeito este preceito: pois certamente guardará estas coisas com mais facilidade pela sua idade. Em todo tipo de vida, em qualquer lugar e ocasião procurem ter ou fazer amigos. Mostrem condescendência com as pessoas dignas, mesmo que elas não esperem isso. Não se perturbem por causa dos soberbos e de modo currículo seguro para seus estudos e para todos os seus colegas. Almejem uma mente boa e uma vida pacata para si mesmos e para todos aqueles para os quais vocês possam desejar.

Santo Agostinho de Hipona, "A Ordem"

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Ser Servo

Santo Agostinho (354-430)
bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja
Sermão para a ordenação de um bispo, 3, 9




O bispo que vos dirige é vosso servo. [...] Que o Senhor nos conceda, portanto, com a ajuda das vossas preces, ser e permanecer até ao fim o que quiserdes que sejamos [...]; que Ele nos ajude a cumprir o que nos ordenou. Mas, seja quem for que sejamos, não coloqueis em nós a vossa esperança. Permito-me dizer-vos isto como bispo: quero alegrar-me convosco e não ficar inflamado de orgulho. [...] Falo agora ao povo de Deus em nome de Cristo, falo na Igreja de Deus, falo como pobre servo de Deus: não coloqueis a vossa esperança em nós, não ponhais a vossa esperança nos homens. Somos bons? Somos servos. Somos maus? Continuamos a ser servos. Mas os bons, os servos fiéis, são os verdadeiros servos.

Qual é o nosso serviço? Prestai atenção: se tendes fome e não quereis ser ingratos, reparai de que celeiro tiramos as provisões; mas não és tu que tens de decidir em que travessa te é servido aquilo que estás ávido de comer: «Numa casa grande não existem somente vasos de ouro e prata, também os há de madeira e de barro» (2Tm 2,20). [O teu bispo parece-se com] uma travessa de prata, uma travessa de ouro, ou uma travessa de argila? Vê se nessa travessa há pão e quem to deu para que te fosse servido, pois Ele é que é o pão: «Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu» (Jo 6,51). Nós, portanto, servimo-vos Cristo, em lugar de Cristo [...], para que Ele chegue até vós, para que Ele seja o juiz do nosso ministério.



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
1º sermão 

Todo o homem é devedor de Deus e tem o seu irmão como seu devedor. Haverá alguém que não deva nada a Deus, senão Aquele em quem não se pode encontrar pecado? E quem é o homem que não tem um irmão como seu devedor, senão aquele a quem ninguém ofendeu? Parece-te possível que haja um único homem a quem não se possa contabilizar qualquer falta para com um irmão? 

Portanto, todo o homem é devedor de alguém e tem os seus devedores. Por isso Deus, que é justo, deu-te uma regra para seguires com o teu devedor, e Ele próprio aplicará esta regra para com o seu. Existem, com efeito, duas obras de misericórdia que nos podem libertar; o próprio Senhor as formulou de uma forma breve no seu Evangelho: «Perdoai e ser-vos-á perdoado», «Dai e dar-se-vos-á» (Lc 6,37ss). A primeira tem a ver com o perdão, a segunda com a caridade. 

Tu desejas obter o perdão dos teus pecados e também tens pecados a perdoar a alguém. O mesmo se passa com a caridade: o mendigo pede-te esmola e tu és o mendigo de Deus, porque todos somos, quando pedimos, mendigos de Deus. Todos nos prostramos diante da porta do nosso Pai, da sua enorme riqueza. E suplicamos-lhe gemendo, desejosos de receber dele alguma coisa: ora essa coisa é o próprio Deus. Que te pede o mendigo? Pão. E tu, que pedes a Deus? Nada menos que o próprio Cristo, que disse: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu» (Jo 6,51). Quereis ser perdoados? «Perdoai e sereis perdoados.» Quereis receber? «Dai e dar-se-vos-á.»


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Foi o fogo do teu amor, Senhor, que permitiu ao diácono São Lourenço permanecer fiel

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 

O exemplo de São Lourenço encoraja-nos a dar a vida, ilumina a fé, atrai a devoção. Não são as chamas da fogueira, mas as chamas de uma fé viva que nos consomem. O nosso corpo não foi queimado pela causa de Jesus Cristo, mas a nossa alma é transportada pelos ardores do seu amor […], o nosso coração arde de amor por Jesus. Pois não foi o próprio Salvador que disse, acerca deste fogo sagrado: «Vim lançar fogo sobre a terra; e que quero Eu senão que ele já se tenha ateado» (Lc 12,49)? Cléofas e o companheiro experimentaram os seus efeitos quando diziam: «Não estava o nosso coração a arder cá dentro, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Lc 24,32) 

Foi também graças a este incêndio interior que São Lourenço permaneceu insensível às chamas do martírio: ardendo em desejos de estar com Jesus, ele não sentia a tortura. Quanto mais crescia nele o ardor da fé, menos sofria. […] A força do braseiro divino que tinha acendido no coração acalmava as chamas do braseiro ateado pelo carrasco.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Santo Agostinho - 2º Discurso sobre o Salmo 33

Santo Agostinho de Hipona


«Quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo»

Entrar no fundo da tua casa é entrar no teu coração. Felizes os que se alegram por entrar no seu próprio coração e nele não encontram mal. [...] 


São de lamentar aqueles que, ao entrarem em sua casa, podem recear ser dela expulsos por causa de duras disputas com os seus. Mas muito mais infelizes são aqueles que não ousam sequer entrar na sua consciência, com medo de serem expulsos pelo remorso dos seus pecados. Se queres entrar com prazer no teu coração, purifica-o: «felizes os corações puros, porque verão a Deus» (Mt 5,8). Arranca do teu coração as nódoas da cupidez, as manchas da avareza, a úlcera da superstição; arranca os sacrilégios, os maus pensamentos, os ódios, não só para com os teus amigos mas também para com os teus inimigos. Arranca tudo isso; depois, entra no teu coração e nele serás feliz.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Não é Ele o filho do carpinteiro?

Santo Agostinho de Hipona 
Sermão 51, §§ 19.30

A resposta do Senhor Jesus: «Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» (Lc 2,49) não afirma que Deus é o seu Pai para significar que José não o é. Como provar isso? Pela Escritura, que continua: «Depois desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso» (v. 51). A quem era Ele submisso? Não era a seus pais? Portanto, eram ambos seus pais. […] Eram seus pais no tempo e Deus era seu Pai desde toda a eternidade. Eles eram os pais do Filho do Homem; o Pai era-o da sua Palavra, do Verbo, da sua Sabedoria (cf 1Cor 1,24), esse poder pelo qual criou todas as coisas. 

Não nos surpreendamos pois por os evangelistas nos darem a genealogia de Jesus por via de José ao invés de o fazerem por via de Maria (cf Mt 1,1; Lc 3,23). Se Maria se tornou mãe fora dos desejos da carne, José tornou-se pai fora de uma união carnal; desse modo, pôde ser o ponto de partida da genealogia do Salvador, mesmo não sendo seu pai segundo a carne. A sua grande pureza confirma a sua paternidade. Maria, sua esposa, quis chamar-lhe assim: «Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!» (Lc 2,48) […] 

Se Maria deu à luz o Salvador para além de todas as leis da natureza, o Espírito Santo também actuou em José, actuando em ambos de modo igual. «José era um homem justo», diz o evangelista Mateus (1,19). O marido era justo, sua mulher era justa: o Espírito Santo repousou sobre dois justos e deu um filho a ambos.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Eu sou o Caminho (Jesus de Nazaré)

«Caminha através do homem e chegarás a Deus. É melhor andar pelo caminho, mesmo a coxear, que andar rapidamente, mas fora do caminho. Porque aquele que vai coxeando pelo caminho, ainda que avance pouco, aproxima-se do termo; mas aquele que anda fora do caminho, quanto mais corre, tanto mais se afasta do termo.»
                                                                       Santo Agostinho de Hipona

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Santo Agostinho e o amor ao inimigo


«Prefiro a misericórdia»
Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África), doutor da Igreja 

Comentário sobre a primeira carta de João, § 8,10


Ao amar o teu inimigo, desejas que ele seja para ti um irmão. Não amas o que ele é, mas aquilo em que queres que ele se torne. Imaginemos um pedaço de madeira de carvalho em bruto. Um artesão hábil vê essa madeira, cortada na floresta; a madeira agrada-lhe; não sei o que ele quer fazer dela, mas não é para a deixar como está que o artista gosta dela. A sua arte faz com que veja em que é que se pode transformar essa madeira; o seu amor não é dirigido à madeira em bruto; ele ama o que fará com ela e não a madeira em bruto.

Foi assim que Deus nos amou quando éramos pecadores. Na verdade, Ele disse: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes». Ter-nos-ia Ele amado pecadores para que permanecêssemos pecadores? O Artesão viu-nos como um pedaço de madeira em bruto, vindo da floresta, e o que tinha em vista era a obra que nela faria, não a madeira em si, nem a floresta.

Contigo passa-se a mesma coisa: vês o teu inimigo opor-se-te, encher-te de palavras mordazes, tornar-se rude nas afrontas que te faz, perseguir-te com o seu ódio. Mas tu estás atento ao facto de ele ser um homem. Vês tudo o que esse homem fez contra ti, mas também vês nele aquilo que foi feito por Deus. Aquilo que ele é, enquanto homem, é obra de Deus; o ódio que te tem é obra dele. E que dizes tu para contigo? «Senhor sê benevolente para com ele, perdoa-lhe os pecados, inspira-lhe o Teu temor, converte-o.» Não amas nesse homem aquilo que ele é, mas aquilo que queres que ele venha a ser. Assim, quando amas um inimigo, amas nele um irmão.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Evangelho segundo S. Marcos 3,31-35 e Comentário de Santo Agostinho de Hipona.

Maria Mãe de Deus.
Naquele tempo, chegaram a casa onde estava Jesus, sua mãe e seus irmãos que, ficando do lado de fora, O mandaram chamar.
A multidão estava sentada em volta dele, quando lhe disseram: «Estão lá fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram.»
Ele respondeu: «Quem são minha mãe e meus irmãos?»
E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados à volta dele, disse: «Aí estão minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.» 



Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África) e doutor da Igreja
Sobre a santa virgindade, cap. 5


«Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe»
 
As que se consagram inteiramente ao Senhor não devem afligir-se pelo facto de, guardando a sua virgindade como Maria, não se poderem tornar mães segundo a carne. [...] Aquele que é o fruto de uma única Virgem santa é a glória e a honra de todas as outras santas virgens, pois, tal como Maria, elas são mães de Cristo, se fizerem a vontade de Seu Pai. A glória e a felicidade de Maria como Mãe de Cristo brilha sobretudo nas palavras do Senhor: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe.» Ele indica assim a paternidade espiritual que O liga ao povo que resgatou. Os Seus irmãos e irmãs são os santos homens e as santas mulheres que são co-herdeiros com Ele da Sua herança celeste (cf Rm 8,17).

Sua mãe é a totalidade da Igreja, pois é ela que, pela graça de Deus, dá à luz os membros de Cristo, isto é, àqueles que Lhe são fiéis. Sua mãe é ainda toda a alma santa que faz a vontade de Seu Pai e onde a caridade fecunda se manifesta naqueles que dá à luz por Ele, «até que Cristo Se forme entre vós» (Gl 4,19). [...]

Entre todas as mulheres, Maria é a única que é ao mesmo tempo virgem e mãe, não apenas pelo espírito, mas também com o corpo. Ela é Mãe segundo o espírito [...] dos membros de Cristo, isto é, de nós próprios, porque cooperou com a sua caridade para dar à luz, na Igreja, os fiéis, que são os membros desse Chefe divino, nossa cabeça (cf Ef 4,15-16), de Quem Ela é verdadeiramente Mãe segundo a carne. Era preciso, com efeito, que o nosso Chefe nascesse segundo a carne duma virgem, para nos ensinar que os Seus membros deveriam nascer, segundo o espírito, doutra virgem, que é a Igreja. Maria é, assim, a única que é Mãe e Virgem ao mesmo tempo, tanto no corpo como no espírito. Mas também a totalidade da Igreja, nos seus santos que deverão possuir o Reino de Deus, é, segundo o espírito, mãe de Cristo e virgem de Cristo. 


Fonte: Evangelho Cotidiano

terça-feira, 26 de julho de 2011

Santo Agostinho

"Deixai que se irritem contra vós aqueles que não sabem com que trabalho se chega à verdade e se evita o erro."

terça-feira, 28 de junho de 2011

A Igreja não é refúgio de carolas

Por Rafael Vitola Brodbeck

Retiro a expressão que dá título a este artigo do equivalente assinado pelo senador Gilberto Amado, sob o título “O Brasil e a renascença católica”, publicado em 1930. Na ocasião, o ilustre político, que já exaltara as qualidades intelectuais de outros católicos, como o leigo Carlos de Laet e o Cardeal Arcoverde, punha-se a tecer a elegia de Alceu de Amoroso Lima, o “Tristão de Ataíde”.

De fato, ao contrário do que propugnam os anticlericais – tomada a palavra em sua pior acepção –, nunca se opôs a Igreja ao fomento da cultura, da ciência e das artes. Não são seus templos redutos exclusivos de beatas, senhoras piedosas, e homens iletrados. É católica a Igreja, i.e., universal, acolhendo todas as almas, das mais variadas colorações sociais, étnicas e circunstanciais.

Desde seu surgimento, justificou, como pedira o apóstolo São Pedro, as razões de sua esperança. Explicou-se aos romanos perseguidores, desfez os equívocos da heresia – “a verdade que enlouqueceu”, no dizer de Chesterton –, alcançou os simples e os poetas, os analfabetos e os filósofos. Deu-nos gigantes da têmpera de um Jerônimo, de um Irineu, de um Crisóstomo, de um Atanásio e de um Agostinho. Forjou, em Santo Tomás de Aquino, o diálogo perfeito entre as letras clássicas, sobretudo de Aristóteles, e o Evangelho. E legou-nos, dos escombros do Império dilacerado pelos bárbaros – que ela converterá depois, começando pelos francos de Clóvis e Clotilde –, a civilização que não se envergonhou de chamar-se "Cristandade".

Quando se dá conta dessa verdade, o laicista enfurece. Nem todos os Richard Dawkins juntos poderão negar a evidência de que a Igreja de Cristo não só não se opôs ao desenvolvimento humano, científico e literário, como o incentivou positivamente. Mais do que isso: o pensamento cristão é, como direi, uma causa do método científico. Ao conceber um Deus Criador que rege o mundo por leis imutáveis dispostas em sua sabedoria, e não pelo mito ou pelo acaso, põe-se o pensador impregnado de cristianismo a perscrutar essas leis. Daí a física, a biologia, a química, vindas, é claro, do legado helênico - não por acaso, o menos mitológico e o mais próximo, entre os filósofos, da idéia cristã de divindade -, porém elevadas a um patamar talvez impossível sem a fé. O Deus cristão assume a natureza humana, encarna-se, e suas leis passam a ser objeto de estudo. A própria moralidade do bem supremo que é Deus converte-se em paradigma de um novo Direito, que mescla a cientificidade do latino com a humanidade evangélica.

O incremento das modernas técnicas agronômicas cooube aos monges beneditinos e cistercienses, que transformaram lodos e pântanos em locais de pastagem e agricultura, criando mosteiros sustentáveis. As noções de liberdade e moral em economia são fruto dos neoescolásticos de Salamanca. E o Direito Internacional é cria de padres católicos: Francisco Suárez, Francisco de Vitória, Bartolomeu de las Casas.

Contra isso, o laicista se levanta. Pode tolerar a senhora, com seu véu negro, desfiando as contas de seu rosário na igreja à meia-luz. Rasga suas vestes de pavor, entretanto, ao deparar-se com o já citado Chesterton, ou a descobrir que Pascal era cristão - embora jansenista. Quando percebe que Pasteur era católico e devoto, sua ira se intensifica. É-lhe impossível reconhecer, sem rubor ou violência, a profunda fé de inúmeros responsáveis pelo incremento da ciência - além dos referidos Pascal e Pasteur, Mendel, Copérnico, Jerôme Lejeune, descobridor da origem genética da Síndrome de Down e que está em processo de beatificação, Georges Lemâitre, padre que propôs o que viria a ser a Teoria do Big Bang (provando que ciência e relato bíblico não são excludentes), Pierre Pérignon (sim, o inventor do espumante era monge), Landell de Moura, padre gaúcho que inventou o rádio. Descobrindo o catolicismo de intelectuais do calibre do historiador Christopher Dawson, do escritor J.R.R. Tolkien, autor da monumental saga de "O Senhor dos Anéis", do economista Thomas Woods, do arquiteto Gaudí (que logo será beatificado), da medievalista francesa Régine Pernoud, ou dos grandes pensadores convertidos Cardeal Newman, Marcel de Corte, Dietrich von Hildebrand, Hilaire Belloc, Paul Claudel, Jacques e Raíssa Maritain, Santa Edith Stein, ou um cineasta de sucesso como Mel Gibson, não pode o inimigo da religião ficar impune em seu erro.

O Brasil não foge a tão robusta tradição. Herdou de Camões, o pai da última flor do lácio, que insculpiu em seus Lusíadas, a mais varonil fé católica e uma impactante devoção à Cruz e ao Cristo, a formação cristã de seus intelectuais. Daí que nos honremos da fibra de Dom Vital, mártir branco no regime do padroado, a pena polêmica e sagaz de Laet, Arcoverde, Eduardo Prado, Joaquim Nabuco (o patriarca da abolição),  Felício dos Santos, João Gualberto (que refutou magristralmente as tresloucadas teses criminológicas lombrosianas), Júlio Maria, Dom Macedo Costa. Daí o orgulho por Jackson de Figueiredo, por Amoroso Lima, por Leonel Franca, pelo gênio Gustavo Corção, por Maurílio Teixeira-Leite Penido, o grande comentador de Pio XII. Daí a figura ímpar, ainda que por muitos incompreendida, de Plínio Corrêa de Oliveira. Daí a liderança do Cardeal Leme.

Leigos e padres não se furtaram a dar sua contribuição à humanidade. Espiritual e temporal. Tal qual o homem, que não é alma penada, tampouco um cadáver ambulante.

Rafael Vitola Brodbeck, casado e pai de família, é Delegado de Polícia no Rio Grande do Sul, e coordena o Salvem a Liturgia, sendo responsável nesse site pelos textos sobre erros litúrgicos, incentivo ao latim, e comentários sobre rubricas e normas. É membro da Sociedade Internacional Santo Tomás de Aquino (SITA/Roma), e da Academia Marial de Aparecida. Desde 1998, é incorporado ao Regnum Christi. Ministra palestras sobre temas litúrgicos e doutrinários

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Vida de Santo Agostinho de Hipona em filme


Será que ainda chega ao Brasil?

Veja neste link, em espanhol,  mais informações sobre o filme dedicado a vida do Bispo de Hipona: Moral y Luces

Catequese do Papa: Santo Agostinho, a busca da Verdade e o silêncio

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 25 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos o discurso de Bento XVI na audiência geral desta quarta-feira, no pátio da residência pontifícia de Castel Gandolfo, em que, na presença dos peregrinos, o Papa falou sobre Santo Agostinho, a busca da Verdade e a importância do silêncio.
* * * 
Caríssimos irmãos e irmãs,
na vida de cada um de nós existem pessoas muito queridas, que sentimos particularmente próximas, algumas já estão nos braços de Deus, outras ainda partilham conosco o caminho da vida: são os nossos pais, os parentes, os educadores, as pessoas a quem fizemos bem ou de quem recebemos o bem; são pessoas com quem sabemos que podemos contar. É importante, entretanto, ter também alguns “companheiros de viagem” no caminho de nossa vida cristã: penso no Diretor espiritual, no Confessor, nas pessoas com quem se pode compartilhar a experiência de fé, mas penso também na Virgem Maria e nos Santos. Todos devem ter algum santo que lhe seja familiar, para senti-lo próximo por meio da oração e intercessão, mas também para imitá-lo. Gostaria de convidar, então, a um maior conhecimento dos Santos, começando por aquele de quem se leva o nome, lendo sua vida, seus escritos. Tenham certeza de que eles se tornarão bons guias para amar ainda mais o Senhor e uma válida ajuda para o crescimento humano e cristão.

Como sabem, eu mesmo estou ligado de modo especial a algumas figuras dos Santos: entre eles, estão São José e São Bento, de quem levo o nome, e outros, como Santo Agostinho, que tive o grande dom de conhecer, por assim dizer, muito de perto, através do estudo e da oração, e que se tornou um bom “companheiro de viagem” na minha vida e no meu ministério.
Gostaria de sublinhar uma vez mais um aspecto importante da sua experiência humana e cristã, atual mesmo em nossa época, em que parece que o relativismo é, paradoxalmente, a “verdade” que deve guiar o pensamento, as escolhas, os comportamentos. Santo Agostinho é um homem que nunca viveu com superficialidade; a sede, a busca inquieta e constante da Verdade é uma das características fundamentais de sua existência; não, porém, das “pseudo verdades” incapazes de levar paz duradoura ao coração, mas daquela Verdade que dá sentido à existência e é “a morada” em que o coração encontra serenidade e alegria.
O caminho dele não foi fácil, nós sabemos: pensava em encontrar a Verdade no prestígio, na carreira, na posse das coisas, nas vozes que lhe prometiam felicidade imediata; cometeu erros, atravessou a tristeza, enfrentou insucessos, mas nunca parou, nunca se satisfez com aquilo que lhe dava apenas um vislumbre de luz; soube perscrutar o íntimo de si e percebeu, como escreve nas Confissões, que aquela Verdade, que o Deus que buscava com suas próprias forças era mais íntimo de si que ele próprio, ele sempre esteve ao seu lado, nunca o tinha abandonado, estava à espera de poder entrar de modo definitivo na sua vida (cf. III, 6, 11; X, 27, 38). Como dizia ao comentar o recente filme sobre sua vida, Santo Agostinho compreendeu, em sua busca inquieta, que não era ele quem havia encontrado a Verdade, mas a própria Verdade, que é Deus, tinha-o buscado e encontrado (cf. L’Osservatore Romano, quinta-feira, 4 de setembro de 2009, p. 8). Romano Guardini, comentando uma passagem do terceiro capítulo das Confissões, afirma: Santo Agostinho percebe que Deus é “glória que se ajoelha, bebida que mata a sede, o amor que traz felicidade, [... ele era] a pacificante certeza de que finalmente tinha compreendido, mas também a beatitude do amor que sabe: isto é tudo e me basta” (Pensatori religiosi, Brescia 2001, p. 177).

Também nas Confissões, no livro nono, nosso Santo reporta uma conversa com a mãe, Santa Mônica. É uma cena muito bonita: ele e sua mãe estão em Ostia, em um hotel, e da janela veem o céu e o mar, transcendem céu e mar, e por um momento tocam o coração de Deus no silêncio das criaturas. E aqui surge uma ideia fundamental no caminho para a Verdade: as criaturas devem silenciar, deve prevalecer o silêncio, em que Deus pode falar. Isso é verdade ainda mais em nosso tempo: há uma espécie de medo do silêncio, do recolhimento, do pensar as próprias ações, do sentido profundo da própria vida, frequentemente se prefere viver o momento fugaz, iludindo-se de que traz felicidade duradoura, prefere-se viver assim pois parece mais fácil, com superficialidade, sem pensar; há medo de buscar a Verdade ou talvez haja medo de que a Verdade seja encontrada, que agarre e mude a vida, como aconteceu com Santo Agostinho.

Caríssimos irmãos e irmãs, gostaria de dizer a todos, também àqueles que vivem um momento de dificuldade no seu caminho de fé, aos que participam pouco da vida da Igreja ou aos que vivem “como se Deus não existisse”, que não tenham medo da Verdade, não interrompam o caminho para ela, não deixem de buscar a verdade profunda sobre si e sobre as coisas, com os olhos interiores do coração. Deus não falhará em oferecer a Luz para fazer ver e Calor para fazer sentir, ao coração que ama e que deseja ser amado.
A intercessão da Virgem Maria, de Santo Agostinho e de Santa Mônica os acompanhe neste caminho.

[Traduzido do original italiano por Alexandre Ribeiro.
Após a audiência, o Papa dirigiu-se aos peregrinos em diferentes idiomas. Em português, disse:]

Queridos peregrinos vindos do Brasil e de Portugal, a minha saudação amiga para todos vós, em especial para os grupos paroquiais de Unhos, Catujal e Viseu. Recordamos nestes dias Santo Agostinho e sua mãe, Santa Mônica, testemunhas de como Jesus Cristo Se deixa encontrar por quantos O procuram. E, com Ele, a vossa vida não poderá deixar de ser feliz.