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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Renunciar a todos os bens

São João Cassiano (c. 360-435), fundador de mosteiro em Marselha 
Conferências 3, 6-7 


Segundo a tradição dos Padres e a autoridade das Sagradas Escrituras, as renúncias são em número de três. […] A primeira diz respeito às coisas materiais: devemos desprezar as riquezas e todos os bens deste mundo. Pela segunda, repudiamos a nossa antiga maneira de viver, os vícios e as paixões da alma e da carne. Pela terceira, distanciamos o nosso espírito de todas as realidades presentes e visíveis, para contemplarmos apenas as realidades futuras e desejarmos apenas as realidades invisíveis. Estas renúncias devem ser observadas em conjunto, como o Senhor ordenou a Abraão quando lhe disse: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai» (Gn 12,1). 

«Deixa a tua terra» – isto é, as riquezas da terra –, disse-lhe em primeiro lugar. Em segundo lugar disse-lhe: «Deixa a tua família», isto é, os hábitos e os vícios passados que, agregando-se a nós desde o dia em que nascemos, estão estreitamente unidos a nós por uma espécie de parentesco. E, em terceiro lugar, «Deixa a casa de teu pai», quer dizer, todas as ligações a este mundo que se apresentam aos nossos olhos. […] 

Contemplemos, como diz o Apóstolo Paulo, «não as coisas visíveis, mas as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas» (2Cor 4,18) […]; «nós, porém, somos cidadãos do céu» (Fil 3,20). […] Sairemos, pois, da casa do nosso antigo pai, daquele que era nosso pai segundo o homem velho desde o dia em que nascemos, desde que «éramos por natureza filhos da ira, como os demais» (Ef 2,3), e transferiremos toda a nossa atenção, todo o nosso espírito, para as coisas celestes. […] Então, a nossa alma elevar-se-á até ao mundo invisível, pela meditação constante das coisas de Deus e pela contemplação espiritual.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Perdoar 7 vezes ao dia.

Isaac da Estrela (?-c. 1171), monge cisterciense 
Sermão 31: PL 194,1792, SC 207 

«Levai os fardos uns dos outros de outros; assim cumprireis a lei de Cristo»; «Suportai-vos uns aos outros com amor» (Gal 6,2; Ef 4,2): é esta a lei de Cristo. Quando vejo no meu irmão alguma coisa incorrigível, como resultado de dificuldades ou de enfermidades físicas ou morais, porque não suportá-lo com paciência, porque não consolá-lo com todo o coração, segundo a palavra da Escritura: «Os seus filhos serão levados ao colo e consolados sobre os joelhos» (Is 66,12)? Faltar-me-á essa caridade que tudo suporta, que é paciente para apoiar, indulgente para amar (cf 1Cor 13,7)? De qualquer maneira, esta é a lei de Cristo: na sua Paixão, Ele realmente «tomou sobre Si as nossas enfermidades» e, na sua misericórdia, «carregou com as nossas dores» (Is 53,4), amando aqueles que carregava, carregando aqueles que amava. 

Quem, ao contrário, é agressivo para com o irmão em dificuldades, quem o atormenta pelas suas fraquezas, sejam elas quais forem, submete-se obviamente à lei do diabo e executa-a. Sejamos pois compassivos uns com os outros e cheios de amor fraternal; suportemos as fraquezas e lutemos contra os vícios. […] E qualquer tipo de vida que permita entregar-se com mais sinceridade ao amor de Deus e, por Ele, ao amor ao próximo – seja na vida religiosa ou na vida laica – é verdadeiramente agradável a Deus.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Cristo, perfeição da Lei e dos Profetas

"Quando leio o Evangelho e nele encontro testemunhos saídos da Lei ou dos 
Profetas, penso só em Cristo. Não leio Moisés nem os Profetas senão com 
a intenção de saber o que dizem eles de Cristo, uma vez que, tendo 
chegado ao esplendor de Cristo como à luz esplendorosa e brilhante do sol, 
não posso depois prestar atenção a uma lâmpada. Se acendermos uma 
lâmpada em pleno dia, o que alumia ela? Ao sol, a luz duma lâmpada é 
invisível. Do mesmo modo, na presença de Cristo, desaparecem por completo 
a Lei e os Profetas. Não critico a sua existência, muito pelo contrário, 
até a enalteço, uma vez que a Lei e os Profetas anunciam a Cristo. Quando 
os leio, porém, a minha intenção não é ater-me ao que dizem mas, a 
partir do que dizem, chegar a Cristo."

São Jerónimo (347-420), presbítero, tradutor da Bíblia, doutor da Igreja 
Homilia nº 9 sobre o Evangelho segundo São Marcos, 8